- Gurlp cof earh... - A "boneca" tossia. Parecia estar presa no matagal. Ela também estava com a barriga para baixo, mas suas pernas estavam afundadas na água.
Flávio não conseguiu conter sua excitação. Ele se levantou no barco e, por alguns segundos, Gustavo teve certeza que ele cairia na água. Mas ele não caiu, parecia ter bastante experiência com aquilo. Ele e Val falaram quase que simultaneamente:
- Bebê? - Val disse com uma voz amistosa
- Rápido! Acho que ela tá se afogando!
- Vai ficar tudo bem tá? Viemos te tirar da água. - Val falava com seu mesmo tom preocupado, mas estranho ao soar por de baixo da máscara.
A garotinha parecia ter uns sete anos e tossia a plenos pulmões. Ela não estava exatamente na margem, parecia ter ficado presa em um tipo de arbusto. Não dava para saber se ela tinha os ouvido, pois se o fez não esboçou reação.
Val e Gustavo giraram o barco e começaram a se aproximar. Remavam rapidamente e com firmeza deram a volta e ficaram o mais próximos da margem que conseguiram, tentando deixá-lo parado. Flávio sentou-se na outra ponta do barco para fazer o contrapeso enquanto Val apoiava o peito sobre a borda, deixando seus dois braços livres para apanhar a garotinha que agora tinha uma tosse ainda mais intensa. Ela parecia aos poucos estar se soltando do arbusto e afundando cada vez mais.
- Aproxima um barco mais um pouquinho. - Gustavo tentou apoiar o remo no fundo do rio, estavam a dois braços do que parecia ser a margem, mas ainda sim não conseguiu alcançá-lo. Ele então remou apenas uma vez, com força. Flávio ainda estava de pé e iluminava a menina.
O barco se aproximou sutilmente, se desviando ligeiramente devido à corrente. Val segurou a menina por debaixo das axilas e tentou trazê-la para dentro do barco, mas não conseguiu. Ele a levantou até a cintura, o suficiente para que eles pudessem ver a minnie estampada nas costas da sua blusinha. Sua cabeça apenas balançou para os lados enquanto o barco pendeu perigosamente para a direita. Flávio teve que sentar na borda oposta do barco para estabilizá-lo.
- Tá pe-sada... - Val quase não conseguiu falar com o esforço. - Vai levando pra margem...
Havia muita sujeira no cabelo da menina que era liso bastante grande. Ela tossiu muito alto e vomitou uma grande quantidade de água.
- Bebê, preciso que você me ajude para eu te levar para a casa okay? - Disse Val enquanto a segurava de costas para ele.
Os três olharam aguardando uma resposta mas se esbarram com o silêncio.
- Acho que ela pode estar em choque. - Disse Flávio. Gustavo continuava lutando para a aproximar o barco da margem, mas não estava conseguindo vencer a corrente. Com o seu esforço, ele só estava conseguindo manter o barco parado.
Val aproximou a garota da borda do barco e a abraçou pelas costas. Ela deu um espasmo rápido -
-Opa... Opa... Calma... - Ele disse, mas ela foi ficando mais agitada e o barco balançando cada vez mais.
Ela então gritou, mas sua voz não era a voz de uma criança. Era uma voz grave, rouca de uma garganta que havia sido forçada ao extremo. Ela estava se debatendo tanto agora que suas pernas estavam saindo da linha da água. Val tentava puxá-la com mais força, mas só conseguia fazer o barco balançar cada vez mais.
Com um gesto rápido ele a virou para si. Ela encostou a cabeça no seu ombro e então parou de se debater. O que aconteceu a seguir foi rápido demais para Flávio entender e incompreensível para Gustavo.
- Tá tudo bem agora tá? - Val falou com sua voz de veludo.
Em uma fração de segundos, ela levantou a cabeça e olhou nos olhos de Val. Pelo ângulo, só Gustavo pode ver aquele olhar. Não era de alguém que estava somente com medo, havia um mar de desespero naquele rosto. Não daquele que nos faz nos rendermos ao destino, mas aquele de um animal acuado em seu último gesto pela sobrevivência.
A garota agarrou a cabeça de Val com as duas mãos e mordeu a sua bocheca. Gustavo pôde ver o sangue escorrendo pela sua boca. Ela deu um último espasmo que fez Val soltá-la, mas ela não o soltou. Pelo susto, o bombeiro tentou empurrar a borda do barco com muita força, que o fez balançar muito intensamente. Flávio que estava sentado na outra borda teve que se jogar para dentro do barco para não ser arremessado para fora. Por sua vez, seu movimento fez com que o barco pendesse tanto para a direita que a borda tocou a linha da água, trazendo aquela lama imunda para dentro e deixando Val escorrer para fora. Duas das três lanternas caíram dentro da água e ao tentar se segurar, Gustavo bateu a sua no barco com tanta força que ela se apagou deixando-os perdidos no susto e na escuridão.
