terça-feira, 12 de agosto de 2014

A Garota no Rio IV

- Gurlp cof earh... - A "boneca" tossia. Parecia estar presa no matagal. Ela também estava com a barriga para baixo, mas suas pernas estavam afundadas na água.
Flávio não conseguiu conter sua excitação. Ele se levantou no barco e, por alguns segundos, Gustavo teve certeza que ele cairia na água. Mas ele não caiu, parecia ter bastante experiência com aquilo. Ele e Val falaram quase que simultaneamente:
- Bebê? - Val disse com uma voz amistosa
- Rápido! Acho que ela tá se afogando!
- Vai ficar tudo bem tá? Viemos te tirar da água. - Val falava com seu mesmo tom preocupado, mas estranho ao soar por de baixo da máscara.
A garotinha parecia ter uns sete anos e tossia a plenos pulmões. Ela não estava exatamente na margem, parecia ter ficado presa em um tipo de arbusto. Não dava para saber se ela tinha os ouvido, pois se o fez não esboçou reação.
Val e Gustavo giraram o barco e começaram a se aproximar. Remavam rapidamente e com firmeza deram a volta e ficaram o mais próximos da margem que conseguiram, tentando deixá-lo parado. Flávio sentou-se na outra ponta do barco para fazer o contrapeso enquanto Val apoiava o peito sobre a borda, deixando seus dois braços livres para apanhar a garotinha que agora tinha uma tosse ainda mais intensa. Ela parecia aos poucos estar se soltando do arbusto e afundando cada vez mais.
- Aproxima um barco mais um pouquinho. - Gustavo tentou apoiar o remo no fundo do rio, estavam a dois braços do que parecia ser a margem, mas ainda sim não conseguiu alcançá-lo. Ele então remou apenas uma vez, com força. Flávio ainda estava de pé e iluminava a menina.
O barco se aproximou sutilmente, se desviando ligeiramente devido à corrente. Val segurou a menina por debaixo das axilas e tentou trazê-la para dentro do barco, mas não conseguiu. Ele a levantou até a cintura, o suficiente para que eles pudessem ver a minnie estampada nas costas da sua blusinha. Sua cabeça apenas balançou para os lados enquanto o barco pendeu perigosamente para a direita. Flávio teve que sentar na borda oposta do barco para estabilizá-lo.
- Tá pe-sada... - Val quase não conseguiu falar com o esforço. - Vai levando pra margem...
Havia muita sujeira no cabelo da menina que era liso bastante grande. Ela tossiu muito alto e vomitou uma grande quantidade de água.
- Bebê, preciso que você me ajude para eu te levar para a casa okay? - Disse Val enquanto a segurava de costas para ele.
Os três olharam aguardando uma resposta mas se esbarram com o silêncio.
- Acho que ela pode estar em choque. - Disse Flávio. Gustavo continuava lutando para a aproximar o barco da margem, mas não estava conseguindo vencer a corrente. Com o seu esforço, ele só estava conseguindo manter o barco parado.
Val aproximou a garota da borda do barco e a abraçou pelas costas. Ela deu um espasmo rápido -
-Opa... Opa... Calma... - Ele disse, mas ela foi ficando mais agitada e o barco balançando cada vez mais.
Ela então gritou, mas sua voz não era a voz de uma criança. Era uma voz grave, rouca de uma garganta que havia sido forçada ao extremo. Ela estava se debatendo tanto agora que suas pernas estavam saindo da linha da água. Val tentava puxá-la com mais força, mas só conseguia fazer o barco balançar cada vez mais.
Com um gesto rápido ele a virou para si. Ela encostou a cabeça no seu ombro e então parou de se debater. O que aconteceu a seguir foi rápido demais para Flávio entender e incompreensível para Gustavo.
- Tá tudo bem agora tá? - Val falou com sua voz de veludo.
Em uma fração de segundos, ela levantou a cabeça e olhou nos olhos de Val. Pelo ângulo, só Gustavo pode ver aquele olhar. Não era de alguém que estava somente com medo, havia um mar de desespero naquele rosto. Não daquele que nos faz nos rendermos ao destino, mas aquele de um animal acuado em seu último gesto pela sobrevivência.
A garota agarrou a cabeça de Val com as duas mãos e mordeu a sua bocheca. Gustavo pôde ver o sangue escorrendo pela sua boca. Ela deu um último espasmo que fez Val soltá-la, mas ela não o soltou. Pelo susto, o bombeiro tentou empurrar a borda do barco com muita força, que o fez balançar muito intensamente. Flávio que estava sentado na outra borda teve que se jogar para dentro do barco para não ser arremessado para fora. Por sua vez, seu movimento fez com que o barco pendesse tanto para a direita que a borda tocou a linha da água, trazendo aquela lama imunda para dentro e deixando Val escorrer para fora. Duas das três lanternas caíram dentro da água e ao tentar se segurar, Gustavo bateu a sua no barco com tanta força que ela se apagou deixando-os perdidos no susto e na escuridão.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

A Garota no Rio (III)

- Valha me Deus! - Flávio apontou sua lanterna para a pedra enquanto levava a outra mão à boca. Ela só encontrou a máscara. O barco ainda tremia ligeiramente com o susto que haviam tomado, os três pareciam três João Bobos, balançando ligeiramente de um lado para o outro, estupefatos com o susto.

E assim ficaram por cerca de vinte segundos. Quando fosse perguntado para eles quanto tempo permaneceram naquela situação, o chute mais próximo seria o de Val: três minutos. E no fim, foi ele que despertou do choque mais rápido.

- Aproxima o barco devagar. - Flávio foi dando a volta no barco devagarinho enquanto Gustavo só observava e aos poucos eles foram se aproximando da margem e da pedra.

Pouco menos de cinco metros antes de alcançarem o corpo das meninas, o motor deu três estouros, estremecendo o barco mais uma vez, e então começou a fazer um ruído alto, que não parecia em nada com o anterior, de hélices girando embaixo da água. - Acho que o motor prendeu em alguma coisa. - Disse Flávio enquanto desligava-o.

Val pegou dois remos, um para si e outro para Gustavo. Flávio assumiu a lanterna silenciosamente enquanto o barco se aproximava cada vez até encostar suavemente na rocha. Os corpos estavam ao alcance da mão desta vez.

Quanto mais eles se aproximavam, mas eles percebiam que havia algo de estranho com eles. Suas cores estavam desbotadas, mas eles não pareciam inchados como era de se esperar. Teriam sido mortos recentemente?

Val esticou a mão com luva e agarrou um dos pequenos braços, puxando-o para dentro do barco.



* * *

Tentaram colocar todas as bonecas dentro do barco, mas elas eram grandes demais pra isso. Na verdade eram maiores do que uma criança pequena. Não era possível ter certeza, mas Gustavo achava que se pudesse ficar em pé dentro do barco e comparasse sua altura com a de uma delas, ela alcançaria tranquilamente o seu diafragma. Ele tinha mais de um metro e oitenta de altura. Todas as bonecas estavam com as barrigas riscadas com uma tinta vermelha difícil de sair, talvez batom. Os desenhos também não faziam muito sentido, lembravam apenas ligeiramente algumas formas. Provavelmente eram rabiscos infantis feitos por sua antiga dona.

Ele lembrava-se de ter visto somente uma outra boneca com aquele tamanho, era de uma prima próxima onde ele costumava passar algumas semanas durante suas férias escolares. Ela dizia que ele tinha medo de dormir na casa dela porquê dormia em um quarto escuro e sozinho. Uma vez ele respondeu que preferia dormir sozinho do que com uma boneca macabra daquele tamanho o vigiando enquanto dormia. A brincadeira foi seguida por uma noite longa de pesadelos para a sua prima que culminou com os dois dormindo juntos com os tios de Gustavo. Poucas semanas depois a boneca foi transferida do quarto de sua prima para o fim do corredor e só não foi abandonada porque sua tia a achava linda. Bem, o que ele sabia é que nenhum dos dois teve coragem de perambular a noite pela casa depois que ela foi colocada lá.

Decidiram então amarrá-las nas laterais do barco com fios de nylon para mostrá-las aos moradores, caso não encontrassem nada. Talvez, a senhora tivesse confundido a criança. Mas e os gritos que a neta e o vizinho escutaram? Não podiam encerrar as buscas. Não sem terminar de vasculhar todo o perímetro.

Os dois bombeiros engataram os remos nas laterais do barco, remavam lentamente com um braço enquanto vasculhavam as margens com lanternas na outra mão. Flávio mantinha distraído, observando o olhar vidrado as bonecas presas pelo pescoço, que encaravam o céu com seus olhares vazios. Val argumentou, sem muita convicção, que a senhora provavelmente devia ter confundido uma das bonecas com uma criança. Ninguém havia se convencido. Nem mesmo ele. O silêncio entre eles parecia mais profundo agora.

E assim percorrem mais duzentos metros.

* * *

- Ali tem outra. - Apontou Gustavo, enquanto a apontava com a lanterna. Val virou-se lentamente e começou a dar instruções de como manobrarem o barco. Se aproximaram devagar, essa estava com os olhos fechados. Quando o barco pegou impulso o suficiente, os dois bombeiros começaram a analisar mais atentamente com suas lanternas.

Foi então que a boneca se mexeu.

(Continua...)
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Fiquei de cama praticamente uma semana, por isto o post acabou atrasando. A partir da semana que vem vou manter a frequência de uma postagem de conto por semana, ela sempre vai ocorrer na noite do sábado (lembrem-se o dia só passa quando você dorme. Então três horas de domingo, pode ainda ser sábado pra mim).

Aproveitei as longas horas de cabeça no travesseiro para pensar sobre o blog e tive algumas ideias bem bacanas. Uma dessas ideias é a do próximo conto que deve proceder A Garota no Rio. Sinto ele bem aqui, quentinho comigo. Direto dos meus pesadelos. O nome vai ser "Eu Prometo".

Lembrem-se que aqui é meu laboratório, então não se surpreendam ao se deparar com novidades. Se gostar dos textos, deixe o feedback.

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sexta-feira, 25 de julho de 2014

A Garota no Rio (II)

- É isso aí então. - Disse Val, dando um ponto final à conversa. - Vamo fazer isso logo. Vou pegar as lanternas e o equipamento enquanto vocês botam o barco na água. - Gustavo ouviu Val dizer antes de se virar e ir até a viatura dos bombeiros. Os outros três, os dois policiais e Flávio o acompanharam até a entrada do beco, onde estavam estacionados os carros.

Depois que eles deram alguns passos, Gustavo percebeu que estava sozinho. Havia um pequeno grupo de crianças, sentados em um degrau na porta casa mais próxima e outros adultos observando-o das janelas quadradas de suas casas. Todos olhando para ele, alguns fixamente enquanto cochichavam indistintamente entre si, outros estavam de lado, mas também falavam baixo com a mão na boca. O bombeiro se sentiu extremamente desconfortável ali. Não era como quando ele teve de subir um morro a alguns meses atrás para tentar controlar um incêndio. Naquele episódio, todos da comunidade estavam tentando ajudar: corriam para pegar água, lhe ofereciam um café rápido, alguns até participavam da ação junto com os bombeiros. Ali, ele e Val estavam sós. Havia alguma coisa errada que ele não sabia o que era. 

Se virou novamente e olhou adiante, no córrego do rio, para onde a criança deve ter sido arrastada. Apesar da aparente calmaria, ele já não conseguia ver os objetos que havia visto antes. Eles já tinham sido levados para dentro da escuridão que agora ele observava, ou que o observava sem ele saber. Sentiu a boca do seu estômago apertar. Com certeza não lhe pagavam bem o suficiente para aquilo.

* * *

Haviam trazido o barco até próximo da água sem muita dificuldade. Ele mal tinha dois metros de largura com pouco mais de cinco metros de comprimento, a única coisa que o impedia de ser classificado como canoa era o motor de aço preto instalado na parte de trás.

O pequeno grupo colocava o equipamento na água em silêncio. Flávio entrou primeiro fazendo careta pelo mal cheiro. - Vocês não tem máscara não?
- Vou pegar. - Val voltou para o carro.

Talvez tentando quebrar o silêncio, um dos policiais falou. - Da outra vez o barco era um pouco maior... - Ninguém deu muita importância ao que ele falou já que estavam todos fazendo os preparativos, a não ser o seu parceiro que o olhou, continuou - Quando tiveram que tirar aquele corpo... Que tinham matado e jogado no rio.
- Hn - Respondeu o outro policial, cuja a identificação apontava-o como Pedro Matias, O+.

O silêncio continuou até Val voltar com os máscaras de hospital, "só tem essas", e os três entrarem no barco. Lá de dentro, Gustavo olhou para os rostos dos policiais, das crianças e dos adultos na margem e viu em cada uma daquelas expressões o quanto cada uma delas estava aliviada em não estar no seu lugar, em especial a das crianças. A senhora que fumava o cachimbo, fez o sinal da cruz na direção do barco, encostou o cachimbo e puxou o terço. "Mas que diabos", pensou ele. Aquilo era um procedimento difícil ele sabia, mas não... ahn... muito arriscado. O pior que ele deveria temer era pegar alguma doença da água do rio. Porquê eles estavam agindo daquele jeito?

Val pareceu ter visto o gesto da velha e deu um riso breve, sarcástico, só para eles escutarem. Gustavo percebeu um certo nervosismo por detrás daquele gesto, ou seria só impressão? Flávio ligou o motor, quebrando o silêncio com seu ronco ligeiramente mais agudo do que o esperado, e eles começaram a se afastar da margem. Acenderam suas lanternas enquanto adentravam a escuridão.

- Essa é a primeira vez que tu entra aqui no matagal né? - Sua voz soava abafada por detrás da máscara. Gustavo acenou com a cabeça positivamente, sem saber que Val não estavam olhando. Ele apenas continuou - De vez em quando aqui tem retirada de corpo que "o pessoal" mata e joga dentro do rio. - A margem agora estava acerca de dez metros e a luz cada vez mais distante.

- Bota a lanterna para aquele lado. E tu - referindo-se a Flávio - cuida dessa daqui pra iluminar o barco. - Ele então retomou o tom mais grave e pausado. - A uns dez anos atrás mataram bem uns dez e jogaram aqui dentro, bem quando começaram as invasões naquela parte do terreno. 

Sua narração foi interrompida quando ele se curvou para frente, parecendo ter tomado um susto ou encontrado alguma coisa. Os outros dois o olharam, surpresos, mas ele fez sinal negativo com a cabeça. A luz amarelada de uma lanterna no fundo do barco clareava seu interior, onde estavam os equipamentos de resgate. Qualquer movimento que um dos três fazia era sentido pelos outros dois e fazer um movimento brusco, poderia até mesmo derrubar os outros. Isso deixava Gustavo, que nunca havia andado num barco, extremamente desconfortável em se mexer, apesar de ainda não ter encontrando uma posição agradável.

Estavam a apenas cinquenta metros abaixo do ponto onde tinham começado as buscas, dali até pelo menos quinhentos metros, era o ponto mais provável para encontrarem a criança ainda viva. - Olha direito o teu lado aí. - Val falou com sua voz autoritária à Gustavo. - Ele havia desistido de contar sua história.

Vários metros de silêncio depois.
 
- OLHA ALI. OLHA ALÍ! - Flávio interrompeu o silêncio, apontando para o lado onde ele estava direcionado sua lanterna. Ele aproximou o barco, enquanto Gustavo virava-se para tentar encontrar o objeto que Flávio estava apontando. Quando as duas lanternas encontraram a área da margem, os três tomaram um susto tão grande que o barco tremeu junto com eles.

Havia uma grande rocha na margem esquerda, do tamanho de um homem em pé. Uma boa parte dela estava coberta de mato e lixo de todo tipo. No meio de todo o lixo, haviam pelo menos cinco silhuetas humanas, do tamanho de crianças pequenas, nuas e com a barriga para baixo. Seus cabelos, pretos, loiros e até um ruivo tremulavam, flutuando com o movimento da água.

(Continua...)
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segunda-feira, 21 de julho de 2014

A Garota no Rio - (I)

- Não dava pra organizar o passeio de manhã? - Gustavo estava dirigindo a viatura do corpo de bombeiros, uma Hilux SW6.
- Eu perguntei pro capitão a mesma coisa, mas tu sabe como é. Governador acabou de assumir e parece que a coisa toda vai passar na televisão. - Val estava sonolento, estivera dormindo enquanto aguardava uma ocorrência no posto de bombeiros. Sequer abriu os olhos para falar.
- Ah não. Odeio dar entrevista. Se aquela nêga vier me entrevistar, tu que vai falar. Tenho paciência pra essas coisas não.

O governador do estado havia assumido seu cargo há cerca de dois meses. O carro-chefe de sua campanha havia sido o combate a violência que havia crescido quase duzentos por cento na última gestão. Algumas medidas imediatas haviam sido tomadas logo nos primeiros meses como compra de equipamentos novos e contratação de mais policiais. Apesar das críticas de sociólogos e outras figuras importantes de que aquelas medidas certamente não produziriam os resultados esperados e que, inclusive haviam sido realizadas também pela gestão anterior, as propagandas já haviam sido lançadas na tv e dos cabos aos capitães, todos sabiam que era hora de mostrar serviço.

* * *

Tiveram dificuldades para chegar ao local. As vielas eram tão estreitas que Gustavo teve que fechar os retrovisores em alguns pontos pra não batê-los nas casas, não apareciam sequer no GPS. Havia também a péssima iluminação pública, mas isso era um mal de todas as periferias daquela metrópole. Os dois já haviam sido chamados duas vezes pelo rádio quando chegaram.

Era um favela imunda. O local que estavam era chamado de "O Beco do Gato Morto". Casas com não mais de três metros de largura se apertavam dos dois lados do que deveria ser uma rua, mas com esgoto a céu aberto, mais parecia um lamaçal. O local não era estranho à Val, ele já o havia visto no programa de reportagens policiais pelo menos duas vezes no último mês. Briga de gangues que acabou em morte de crianças ou algo assim.

Flávio já estava no local. Ele tinha vindo em uma velha Parati branca da Secretaria do Meio Ambiente a qual um barco havia sido prendido na parte de cima do teto. Ela estava estacionada na frente de outra viatura, do mesmo modelo que a viatura dos bombeiros, mas pintada com as cores cinzentas e vermelhas da Polícia Militar. Assim que ele os viu chegar, interrompeu a conversa com os dois policiais e apontou para eles.

Os faróis da viatura da polícia estavam ligados, pois naquele local não havia iluminação pública. Aquela comunidade havia surgido da invasão de um grande terreno cortado por um rio e com mata ainda intocada. O beco terminava na beira do rio. A última casa do lado esquerdo estava praticamente dentro dele, com seu alicerce de tijolo não pintado sendo tocado pela água. Do lado direito havia um pequeno espaço, que só não havia virado uma casa porque ele fazia uma curva para este lado, o que diminuía muito o tamanho do local, mas acabou sendo aproveitado pelas donas de casa para estender roupas.

Pelo menos quinze pessoas, mais da metade de crianças e adolescentes se amontavam ao redor de Flávio e dos policiais, mas ninguém tinha coragem de chegar perto. Um casal de idosos estavam sentados em um velho banco, que na verdade era apenas um tronco de uma árvore cortada deitado, iluminados pelo brasileiro de seu cachimbo na frente da última casa. Gustavo detestava o cheiro forte e pegajoso de fumo, mas ao descer do carro tentou se agarrar desesperadamente a ele, pois o cheiro de esgoto e fossa vindos da água do rio era insuportável.

- O Honório explicou vocês? - Disse Flávio, acompanhado pelos dois policiais.
- Ele disse que uma criança tinha caído no rio.
- A dona Graça alí - Flávio apontou para a senhora fumando um cachimbo. - estava estendendo a roupa quando ouviu os gritos de uma criança. Ela disse que olhou pra água e viu uma criança de uns seis anos sendo arrastada.
- Foi só ela que viu? - Disse Val.
- Não, parece que a neta e um vizinho ouviram os gritos, mas quando chegaram aqui a criança já tinha passado pelo mato e não conseguiram ver nada. O pessoal da mídia que ligou pra secretaria.
- Entendi. - Capitão Honório tinha dito que o pessoal da mídia tinha chegado primeiro, mas não que eles tinham feito a denúncia. - Isso era pra ser resolvido pela PM pra de manhã vir nosso pessoal fazer as buscas. Uma hora dessa num dá pra achar muita coisa não. - Seu rosto transparecia o aborrecimento que estava sentindo.
- É mas tu sabe como é né? Parece que ligaram aí a viatura demorou pra chegar e o pessoal da reportagem ligou pra secretaria. Tu sabe como as coisas são. - Flávio chegou mais perto e começou a falar mais baixo. - A gente dá uma olhada por cima, quando for de manhã parece que vai ter uma equipe completa aqui. A boca de Gustavo se contorceu com a expectativa de entrar naquela água imunda. Algumas coisas parecem só se tornar reais quando você está de frente para elas.

Ele se afastou do pequeno grupo e deu três passos até ficar na borda do rio. Ele deveria ter uns seis ou sete metros de largura. Do outro lado não havia nada, só mato. Tão denso que nem dava pra saber exatamente onde a terra começava, mas dava para ter uma ideia pela presença de árvores mais altas. Havia alguns dejetos flutuando: um plástico, alguns pedaços de madeira e a espuma, por sinal aqueles objetos eram as únicas coisas que permitiam a ele discernir que àquele breu absoluto era água. Pelo movimento dos objetos, o rio corria da direta para a esquerda do bombeiro. Ele esticou o pescoço pra tentar ver além da casa construída quase dentro da água à sua esquerda. Seu ângulo era bom, mas àquela hora da noite ele só viu escuridão

Tentou respirar fundo pela perspectiva de entrar no breu, mas tossiu devido ao cheiro forte. Prometeu a si mesmo que depois desta iria se aproximar do sindicato na luta pela campanha salarial daquele ano...

(Continua...)

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sexta-feira, 18 de julho de 2014

A Taverna do Fim do Mundo

Existe um lugar onde todas as histórias se encontram. Ele fica no centro de todas as tempestades, naquela rua que você nunca mais achou, naquele sonho que você nunca mais sonhou e naquele momento que nunca mais irá se repetir.

O conceito da Taverna do Fim do Mundo se tornou popular na HQ Sandman, com o arco "Fim do Mundo" que inicia no exemplar #51 e vai até o #56. Nele, um personagem perdido acaba por encontrar um lugar diferente, um tipo exótico de bar, depois de vagar por algum tempo perdido dentro de uma nevasca. Ou deveria chamar-se uma taverna? Lá dentro, várias figuras estranhas com roupas de diversos períodos diferentes da história sentam-se para tomar uma boa cerveja enquanto aguardam a tempestade passar, por mais que cada um descreva uma tempestade diferente e relate uma data diferente...

Ilustração em Sandman #51

"No fim do mundo, às vezes, a única opção que nos resta é aguardar...

Durante a espera, um conto pode ser dito ou ouvido como um bom conhaque é sorvido para espantar o fantasma do frio e do medo.

Muitas vezes, entretanto, por mais ingênua que pareça, uma história pode provocar calafrios abissais. Calafrios que congelam a alma, endurecem os dedos da mão e fazem você querer fugir noite adentro, rezando para o primeiro deus que aparecer.

Nesta fuga, tropeçando por vielas úmidas e se escondendo nas sombras projetas por postes trêmulos, você esquece que, talvez, as cidades também possam sonhar...

O que será de nós? Ninguém ousa saber.

Então, meu amigo, não fuja!

Seja bem vindo à Taverna do Fim do Mundo!
Puxe uma cadeira, acomode-se e prepare-se.
Temos muitas história para contar."
(Apresentação do Arco na Sandman #51)



Talvez no fim das contas a Taverna do Fim do Mundo não seja tão ficção assim.

Aqui você encontrará algumas história e contos. Algumas longas, outras breves. Algumas assustadoras, outras nem tanto. Seja bem vindo para tecer críticas e sugestões. Todos os comentários serão aceitos sem moderação, excluídos apenas quando se mostrar necessário.