sexta-feira, 25 de julho de 2014

A Garota no Rio (II)

- É isso aí então. - Disse Val, dando um ponto final à conversa. - Vamo fazer isso logo. Vou pegar as lanternas e o equipamento enquanto vocês botam o barco na água. - Gustavo ouviu Val dizer antes de se virar e ir até a viatura dos bombeiros. Os outros três, os dois policiais e Flávio o acompanharam até a entrada do beco, onde estavam estacionados os carros.

Depois que eles deram alguns passos, Gustavo percebeu que estava sozinho. Havia um pequeno grupo de crianças, sentados em um degrau na porta casa mais próxima e outros adultos observando-o das janelas quadradas de suas casas. Todos olhando para ele, alguns fixamente enquanto cochichavam indistintamente entre si, outros estavam de lado, mas também falavam baixo com a mão na boca. O bombeiro se sentiu extremamente desconfortável ali. Não era como quando ele teve de subir um morro a alguns meses atrás para tentar controlar um incêndio. Naquele episódio, todos da comunidade estavam tentando ajudar: corriam para pegar água, lhe ofereciam um café rápido, alguns até participavam da ação junto com os bombeiros. Ali, ele e Val estavam sós. Havia alguma coisa errada que ele não sabia o que era. 

Se virou novamente e olhou adiante, no córrego do rio, para onde a criança deve ter sido arrastada. Apesar da aparente calmaria, ele já não conseguia ver os objetos que havia visto antes. Eles já tinham sido levados para dentro da escuridão que agora ele observava, ou que o observava sem ele saber. Sentiu a boca do seu estômago apertar. Com certeza não lhe pagavam bem o suficiente para aquilo.

* * *

Haviam trazido o barco até próximo da água sem muita dificuldade. Ele mal tinha dois metros de largura com pouco mais de cinco metros de comprimento, a única coisa que o impedia de ser classificado como canoa era o motor de aço preto instalado na parte de trás.

O pequeno grupo colocava o equipamento na água em silêncio. Flávio entrou primeiro fazendo careta pelo mal cheiro. - Vocês não tem máscara não?
- Vou pegar. - Val voltou para o carro.

Talvez tentando quebrar o silêncio, um dos policiais falou. - Da outra vez o barco era um pouco maior... - Ninguém deu muita importância ao que ele falou já que estavam todos fazendo os preparativos, a não ser o seu parceiro que o olhou, continuou - Quando tiveram que tirar aquele corpo... Que tinham matado e jogado no rio.
- Hn - Respondeu o outro policial, cuja a identificação apontava-o como Pedro Matias, O+.

O silêncio continuou até Val voltar com os máscaras de hospital, "só tem essas", e os três entrarem no barco. Lá de dentro, Gustavo olhou para os rostos dos policiais, das crianças e dos adultos na margem e viu em cada uma daquelas expressões o quanto cada uma delas estava aliviada em não estar no seu lugar, em especial a das crianças. A senhora que fumava o cachimbo, fez o sinal da cruz na direção do barco, encostou o cachimbo e puxou o terço. "Mas que diabos", pensou ele. Aquilo era um procedimento difícil ele sabia, mas não... ahn... muito arriscado. O pior que ele deveria temer era pegar alguma doença da água do rio. Porquê eles estavam agindo daquele jeito?

Val pareceu ter visto o gesto da velha e deu um riso breve, sarcástico, só para eles escutarem. Gustavo percebeu um certo nervosismo por detrás daquele gesto, ou seria só impressão? Flávio ligou o motor, quebrando o silêncio com seu ronco ligeiramente mais agudo do que o esperado, e eles começaram a se afastar da margem. Acenderam suas lanternas enquanto adentravam a escuridão.

- Essa é a primeira vez que tu entra aqui no matagal né? - Sua voz soava abafada por detrás da máscara. Gustavo acenou com a cabeça positivamente, sem saber que Val não estavam olhando. Ele apenas continuou - De vez em quando aqui tem retirada de corpo que "o pessoal" mata e joga dentro do rio. - A margem agora estava acerca de dez metros e a luz cada vez mais distante.

- Bota a lanterna para aquele lado. E tu - referindo-se a Flávio - cuida dessa daqui pra iluminar o barco. - Ele então retomou o tom mais grave e pausado. - A uns dez anos atrás mataram bem uns dez e jogaram aqui dentro, bem quando começaram as invasões naquela parte do terreno. 

Sua narração foi interrompida quando ele se curvou para frente, parecendo ter tomado um susto ou encontrado alguma coisa. Os outros dois o olharam, surpresos, mas ele fez sinal negativo com a cabeça. A luz amarelada de uma lanterna no fundo do barco clareava seu interior, onde estavam os equipamentos de resgate. Qualquer movimento que um dos três fazia era sentido pelos outros dois e fazer um movimento brusco, poderia até mesmo derrubar os outros. Isso deixava Gustavo, que nunca havia andado num barco, extremamente desconfortável em se mexer, apesar de ainda não ter encontrando uma posição agradável.

Estavam a apenas cinquenta metros abaixo do ponto onde tinham começado as buscas, dali até pelo menos quinhentos metros, era o ponto mais provável para encontrarem a criança ainda viva. - Olha direito o teu lado aí. - Val falou com sua voz autoritária à Gustavo. - Ele havia desistido de contar sua história.

Vários metros de silêncio depois.
 
- OLHA ALI. OLHA ALÍ! - Flávio interrompeu o silêncio, apontando para o lado onde ele estava direcionado sua lanterna. Ele aproximou o barco, enquanto Gustavo virava-se para tentar encontrar o objeto que Flávio estava apontando. Quando as duas lanternas encontraram a área da margem, os três tomaram um susto tão grande que o barco tremeu junto com eles.

Havia uma grande rocha na margem esquerda, do tamanho de um homem em pé. Uma boa parte dela estava coberta de mato e lixo de todo tipo. No meio de todo o lixo, haviam pelo menos cinco silhuetas humanas, do tamanho de crianças pequenas, nuas e com a barriga para baixo. Seus cabelos, pretos, loiros e até um ruivo tremulavam, flutuando com o movimento da água.

(Continua...)
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segunda-feira, 21 de julho de 2014

A Garota no Rio - (I)

- Não dava pra organizar o passeio de manhã? - Gustavo estava dirigindo a viatura do corpo de bombeiros, uma Hilux SW6.
- Eu perguntei pro capitão a mesma coisa, mas tu sabe como é. Governador acabou de assumir e parece que a coisa toda vai passar na televisão. - Val estava sonolento, estivera dormindo enquanto aguardava uma ocorrência no posto de bombeiros. Sequer abriu os olhos para falar.
- Ah não. Odeio dar entrevista. Se aquela nêga vier me entrevistar, tu que vai falar. Tenho paciência pra essas coisas não.

O governador do estado havia assumido seu cargo há cerca de dois meses. O carro-chefe de sua campanha havia sido o combate a violência que havia crescido quase duzentos por cento na última gestão. Algumas medidas imediatas haviam sido tomadas logo nos primeiros meses como compra de equipamentos novos e contratação de mais policiais. Apesar das críticas de sociólogos e outras figuras importantes de que aquelas medidas certamente não produziriam os resultados esperados e que, inclusive haviam sido realizadas também pela gestão anterior, as propagandas já haviam sido lançadas na tv e dos cabos aos capitães, todos sabiam que era hora de mostrar serviço.

* * *

Tiveram dificuldades para chegar ao local. As vielas eram tão estreitas que Gustavo teve que fechar os retrovisores em alguns pontos pra não batê-los nas casas, não apareciam sequer no GPS. Havia também a péssima iluminação pública, mas isso era um mal de todas as periferias daquela metrópole. Os dois já haviam sido chamados duas vezes pelo rádio quando chegaram.

Era um favela imunda. O local que estavam era chamado de "O Beco do Gato Morto". Casas com não mais de três metros de largura se apertavam dos dois lados do que deveria ser uma rua, mas com esgoto a céu aberto, mais parecia um lamaçal. O local não era estranho à Val, ele já o havia visto no programa de reportagens policiais pelo menos duas vezes no último mês. Briga de gangues que acabou em morte de crianças ou algo assim.

Flávio já estava no local. Ele tinha vindo em uma velha Parati branca da Secretaria do Meio Ambiente a qual um barco havia sido prendido na parte de cima do teto. Ela estava estacionada na frente de outra viatura, do mesmo modelo que a viatura dos bombeiros, mas pintada com as cores cinzentas e vermelhas da Polícia Militar. Assim que ele os viu chegar, interrompeu a conversa com os dois policiais e apontou para eles.

Os faróis da viatura da polícia estavam ligados, pois naquele local não havia iluminação pública. Aquela comunidade havia surgido da invasão de um grande terreno cortado por um rio e com mata ainda intocada. O beco terminava na beira do rio. A última casa do lado esquerdo estava praticamente dentro dele, com seu alicerce de tijolo não pintado sendo tocado pela água. Do lado direito havia um pequeno espaço, que só não havia virado uma casa porque ele fazia uma curva para este lado, o que diminuía muito o tamanho do local, mas acabou sendo aproveitado pelas donas de casa para estender roupas.

Pelo menos quinze pessoas, mais da metade de crianças e adolescentes se amontavam ao redor de Flávio e dos policiais, mas ninguém tinha coragem de chegar perto. Um casal de idosos estavam sentados em um velho banco, que na verdade era apenas um tronco de uma árvore cortada deitado, iluminados pelo brasileiro de seu cachimbo na frente da última casa. Gustavo detestava o cheiro forte e pegajoso de fumo, mas ao descer do carro tentou se agarrar desesperadamente a ele, pois o cheiro de esgoto e fossa vindos da água do rio era insuportável.

- O Honório explicou vocês? - Disse Flávio, acompanhado pelos dois policiais.
- Ele disse que uma criança tinha caído no rio.
- A dona Graça alí - Flávio apontou para a senhora fumando um cachimbo. - estava estendendo a roupa quando ouviu os gritos de uma criança. Ela disse que olhou pra água e viu uma criança de uns seis anos sendo arrastada.
- Foi só ela que viu? - Disse Val.
- Não, parece que a neta e um vizinho ouviram os gritos, mas quando chegaram aqui a criança já tinha passado pelo mato e não conseguiram ver nada. O pessoal da mídia que ligou pra secretaria.
- Entendi. - Capitão Honório tinha dito que o pessoal da mídia tinha chegado primeiro, mas não que eles tinham feito a denúncia. - Isso era pra ser resolvido pela PM pra de manhã vir nosso pessoal fazer as buscas. Uma hora dessa num dá pra achar muita coisa não. - Seu rosto transparecia o aborrecimento que estava sentindo.
- É mas tu sabe como é né? Parece que ligaram aí a viatura demorou pra chegar e o pessoal da reportagem ligou pra secretaria. Tu sabe como as coisas são. - Flávio chegou mais perto e começou a falar mais baixo. - A gente dá uma olhada por cima, quando for de manhã parece que vai ter uma equipe completa aqui. A boca de Gustavo se contorceu com a expectativa de entrar naquela água imunda. Algumas coisas parecem só se tornar reais quando você está de frente para elas.

Ele se afastou do pequeno grupo e deu três passos até ficar na borda do rio. Ele deveria ter uns seis ou sete metros de largura. Do outro lado não havia nada, só mato. Tão denso que nem dava pra saber exatamente onde a terra começava, mas dava para ter uma ideia pela presença de árvores mais altas. Havia alguns dejetos flutuando: um plástico, alguns pedaços de madeira e a espuma, por sinal aqueles objetos eram as únicas coisas que permitiam a ele discernir que àquele breu absoluto era água. Pelo movimento dos objetos, o rio corria da direta para a esquerda do bombeiro. Ele esticou o pescoço pra tentar ver além da casa construída quase dentro da água à sua esquerda. Seu ângulo era bom, mas àquela hora da noite ele só viu escuridão

Tentou respirar fundo pela perspectiva de entrar no breu, mas tossiu devido ao cheiro forte. Prometeu a si mesmo que depois desta iria se aproximar do sindicato na luta pela campanha salarial daquele ano...

(Continua...)

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sexta-feira, 18 de julho de 2014

A Taverna do Fim do Mundo

Existe um lugar onde todas as histórias se encontram. Ele fica no centro de todas as tempestades, naquela rua que você nunca mais achou, naquele sonho que você nunca mais sonhou e naquele momento que nunca mais irá se repetir.

O conceito da Taverna do Fim do Mundo se tornou popular na HQ Sandman, com o arco "Fim do Mundo" que inicia no exemplar #51 e vai até o #56. Nele, um personagem perdido acaba por encontrar um lugar diferente, um tipo exótico de bar, depois de vagar por algum tempo perdido dentro de uma nevasca. Ou deveria chamar-se uma taverna? Lá dentro, várias figuras estranhas com roupas de diversos períodos diferentes da história sentam-se para tomar uma boa cerveja enquanto aguardam a tempestade passar, por mais que cada um descreva uma tempestade diferente e relate uma data diferente...

Ilustração em Sandman #51

"No fim do mundo, às vezes, a única opção que nos resta é aguardar...

Durante a espera, um conto pode ser dito ou ouvido como um bom conhaque é sorvido para espantar o fantasma do frio e do medo.

Muitas vezes, entretanto, por mais ingênua que pareça, uma história pode provocar calafrios abissais. Calafrios que congelam a alma, endurecem os dedos da mão e fazem você querer fugir noite adentro, rezando para o primeiro deus que aparecer.

Nesta fuga, tropeçando por vielas úmidas e se escondendo nas sombras projetas por postes trêmulos, você esquece que, talvez, as cidades também possam sonhar...

O que será de nós? Ninguém ousa saber.

Então, meu amigo, não fuja!

Seja bem vindo à Taverna do Fim do Mundo!
Puxe uma cadeira, acomode-se e prepare-se.
Temos muitas história para contar."
(Apresentação do Arco na Sandman #51)



Talvez no fim das contas a Taverna do Fim do Mundo não seja tão ficção assim.

Aqui você encontrará algumas história e contos. Algumas longas, outras breves. Algumas assustadoras, outras nem tanto. Seja bem vindo para tecer críticas e sugestões. Todos os comentários serão aceitos sem moderação, excluídos apenas quando se mostrar necessário.