- É isso aí então. - Disse Val, dando um ponto final à conversa. - Vamo fazer isso logo. Vou pegar as lanternas e o equipamento enquanto vocês botam o barco na água. - Gustavo ouviu Val dizer antes de se virar e ir até a viatura dos bombeiros. Os outros três, os dois policiais e Flávio o acompanharam até a entrada do beco, onde estavam estacionados os carros.
Depois que eles deram alguns passos, Gustavo percebeu que estava sozinho. Havia um pequeno grupo de crianças, sentados em um degrau na porta casa mais próxima e outros adultos observando-o das janelas quadradas de suas casas. Todos olhando para ele, alguns fixamente enquanto cochichavam indistintamente entre si, outros estavam de lado, mas também falavam baixo com a mão na boca. O bombeiro se sentiu extremamente desconfortável ali. Não era como quando ele teve de subir um morro a alguns meses atrás para tentar controlar um incêndio. Naquele episódio, todos da comunidade estavam tentando ajudar: corriam para pegar água, lhe ofereciam um café rápido, alguns até participavam da ação junto com os bombeiros. Ali, ele e Val estavam sós. Havia alguma coisa errada que ele não sabia o que era.
Se virou novamente e olhou adiante, no córrego do rio, para onde a criança deve ter sido arrastada. Apesar da aparente calmaria, ele já não conseguia ver os objetos que havia visto antes. Eles já tinham sido levados para dentro da escuridão que agora ele observava, ou que o observava sem ele saber. Sentiu a boca do seu estômago apertar. Com certeza não lhe pagavam bem o suficiente para aquilo.
* * *
Haviam trazido o barco até próximo da água sem muita dificuldade. Ele mal tinha dois metros de largura com pouco mais de cinco metros de comprimento, a única coisa que o impedia de ser classificado como canoa era o motor de aço preto instalado na parte de trás.
O pequeno grupo colocava o equipamento na água em silêncio. Flávio entrou primeiro fazendo careta pelo mal cheiro. - Vocês não tem máscara não?
- Vou pegar. - Val voltou para o carro.
Talvez tentando quebrar o silêncio, um dos policiais falou. - Da outra vez o barco era um pouco maior... - Ninguém deu muita importância ao que ele falou já que estavam todos fazendo os preparativos, a não ser o seu parceiro que o olhou, continuou - Quando tiveram que tirar aquele corpo... Que tinham matado e jogado no rio.
- Hn - Respondeu o outro policial, cuja a identificação apontava-o como Pedro Matias, O+.
O silêncio continuou até Val voltar com os máscaras de hospital, "só tem essas", e os três entrarem no barco. Lá de dentro, Gustavo olhou para os rostos dos policiais, das crianças e dos adultos na margem e viu em cada uma daquelas expressões o quanto cada uma delas estava aliviada em não estar no seu lugar, em especial a das crianças. A senhora que fumava o cachimbo, fez o sinal da cruz na direção do barco, encostou o cachimbo e puxou o terço. "Mas que diabos", pensou ele. Aquilo era um procedimento difícil ele sabia, mas não... ahn... muito arriscado. O pior que ele deveria temer era pegar alguma doença da água do rio. Porquê eles estavam agindo daquele jeito?
Val pareceu ter visto o gesto da velha e deu um riso breve, sarcástico, só para eles escutarem. Gustavo percebeu um certo nervosismo por detrás daquele gesto, ou seria só impressão? Flávio ligou o motor, quebrando o silêncio com seu ronco ligeiramente mais agudo do que o esperado, e eles começaram a se afastar da margem. Acenderam suas lanternas enquanto adentravam a escuridão.
- Essa é a primeira vez que tu entra aqui no matagal né? - Sua voz soava abafada por detrás da máscara. Gustavo acenou com a cabeça positivamente, sem saber que Val não estavam olhando. Ele apenas continuou - De vez em quando aqui tem retirada de corpo que "o pessoal" mata e joga dentro do rio. - A margem agora estava acerca de dez metros e a luz cada vez mais distante.
- Bota a lanterna para aquele lado. E tu - referindo-se a Flávio - cuida dessa daqui pra iluminar o barco. - Ele então retomou o tom mais grave e pausado. - A uns dez anos atrás mataram bem uns dez e jogaram aqui dentro, bem quando começaram as invasões naquela parte do terreno.
Sua narração foi interrompida quando ele se curvou para frente, parecendo ter tomado um susto ou encontrado alguma coisa. Os outros dois o olharam, surpresos, mas ele fez sinal negativo com a cabeça. A luz amarelada de uma lanterna no fundo do barco clareava seu interior, onde estavam os equipamentos de resgate. Qualquer movimento que um dos três fazia era sentido pelos outros dois e fazer um movimento brusco, poderia até mesmo derrubar os outros. Isso deixava Gustavo, que nunca havia andado num barco, extremamente desconfortável em se mexer, apesar de ainda não ter encontrando uma posição agradável.
Estavam a apenas cinquenta metros abaixo do ponto onde tinham começado as buscas, dali até pelo menos quinhentos metros, era o ponto mais provável para encontrarem a criança ainda viva. - Olha direito o teu lado aí. - Val falou com sua voz autoritária à Gustavo. - Ele havia desistido de contar sua história.
Vários metros de silêncio depois.
- OLHA ALI. OLHA ALÍ! - Flávio interrompeu o silêncio, apontando para o lado onde ele estava direcionado sua lanterna. Ele aproximou o barco, enquanto Gustavo virava-se para tentar encontrar o objeto que Flávio estava apontando. Quando as duas lanternas encontraram a área da margem, os três tomaram um susto tão grande que o barco tremeu junto com eles.
Havia uma grande rocha na margem esquerda, do tamanho de um homem em pé. Uma boa parte dela estava coberta de mato e lixo de todo tipo. No meio de todo o lixo, haviam pelo menos cinco silhuetas humanas, do tamanho de crianças pequenas, nuas e com a barriga para baixo. Seus cabelos, pretos, loiros e até um ruivo tremulavam, flutuando com o movimento da água.
(Continua...)
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