- Não dava pra organizar o passeio de manhã? - Gustavo estava dirigindo a viatura do corpo de bombeiros, uma Hilux SW6.
- Eu perguntei pro capitão a mesma coisa, mas tu sabe como é. Governador acabou de assumir e parece que a coisa toda vai passar na televisão. - Val estava sonolento, estivera dormindo enquanto aguardava uma ocorrência no posto de bombeiros. Sequer abriu os olhos para falar.
- Ah não. Odeio dar entrevista. Se aquela nêga vier me entrevistar, tu que vai falar. Tenho paciência pra essas coisas não.
O governador do estado havia assumido seu cargo há cerca de dois meses. O carro-chefe de sua campanha havia sido o combate a violência que havia crescido quase duzentos por cento na última gestão. Algumas medidas imediatas haviam sido tomadas logo nos primeiros meses como compra de equipamentos novos e contratação de mais policiais. Apesar das críticas de sociólogos e outras figuras importantes de que aquelas medidas certamente não produziriam os resultados esperados e que, inclusive haviam sido realizadas também pela gestão anterior, as propagandas já haviam sido lançadas na tv e dos cabos aos capitães, todos sabiam que era hora de mostrar serviço.
* * *
Tiveram dificuldades para chegar ao local. As vielas eram tão estreitas que Gustavo teve que fechar os retrovisores em alguns pontos pra não batê-los nas casas, não apareciam sequer no GPS. Havia também a péssima iluminação pública, mas isso era um mal de todas as periferias daquela metrópole. Os dois já haviam sido chamados duas vezes pelo rádio quando chegaram.
Era um favela imunda. O local que estavam era chamado de "O Beco do Gato Morto". Casas com não mais de três metros de largura se apertavam dos dois lados do que deveria ser uma rua, mas com esgoto a céu aberto, mais parecia um lamaçal. O local não era estranho à Val, ele já o havia visto no programa de reportagens policiais pelo menos duas vezes no último mês. Briga de gangues que acabou em morte de crianças ou algo assim.
Flávio já estava no local. Ele tinha vindo em uma velha Parati branca da Secretaria do Meio Ambiente a qual um barco havia sido prendido na parte de cima do teto. Ela estava estacionada na frente de outra viatura, do mesmo modelo que a viatura dos bombeiros, mas pintada com as cores cinzentas e vermelhas da Polícia Militar. Assim que ele os viu chegar, interrompeu a conversa com os dois policiais e apontou para eles.
Os faróis da viatura da polícia estavam ligados, pois naquele local não havia iluminação pública. Aquela comunidade havia surgido da invasão de um grande terreno cortado por um rio e com mata ainda intocada. O beco terminava na beira do rio. A última casa do lado esquerdo estava praticamente dentro dele, com seu alicerce de tijolo não pintado sendo tocado pela água. Do lado direito havia um pequeno espaço, que só não havia virado uma casa porque ele fazia uma curva para este lado, o que diminuía muito o tamanho do local, mas acabou sendo aproveitado pelas donas de casa para estender roupas.
Os faróis da viatura da polícia estavam ligados, pois naquele local não havia iluminação pública. Aquela comunidade havia surgido da invasão de um grande terreno cortado por um rio e com mata ainda intocada. O beco terminava na beira do rio. A última casa do lado esquerdo estava praticamente dentro dele, com seu alicerce de tijolo não pintado sendo tocado pela água. Do lado direito havia um pequeno espaço, que só não havia virado uma casa porque ele fazia uma curva para este lado, o que diminuía muito o tamanho do local, mas acabou sendo aproveitado pelas donas de casa para estender roupas.
Pelo menos quinze pessoas, mais da metade de crianças e adolescentes se amontavam ao redor de Flávio e dos policiais, mas ninguém tinha coragem de chegar perto. Um casal de idosos estavam sentados em um velho banco, que na verdade era apenas um tronco de uma árvore cortada deitado, iluminados pelo brasileiro de seu cachimbo na frente da última casa. Gustavo detestava o cheiro forte e pegajoso de fumo, mas ao descer do carro tentou se agarrar desesperadamente a ele, pois o cheiro de esgoto e fossa vindos da água do rio era insuportável.
- O Honório explicou vocês? - Disse Flávio, acompanhado pelos dois policiais.
- Ele disse que uma criança tinha caído no rio.
- A dona Graça alí - Flávio apontou para a senhora fumando um cachimbo. - estava estendendo a roupa quando ouviu os gritos de uma criança. Ela disse que olhou pra água e viu uma criança de uns seis anos sendo arrastada.
- Foi só ela que viu? - Disse Val.
- Não, parece que a neta e um vizinho ouviram os gritos, mas quando chegaram aqui a criança já tinha passado pelo mato e não conseguiram ver nada. O pessoal da mídia que ligou pra secretaria.
- Entendi. - Capitão Honório tinha dito que o pessoal da mídia tinha chegado primeiro, mas não que eles tinham feito a denúncia. - Isso era pra ser resolvido pela PM pra de manhã vir nosso pessoal fazer as buscas. Uma hora dessa num dá pra achar muita coisa não. - Seu rosto transparecia o aborrecimento que estava sentindo.
- É mas tu sabe como é né? Parece que ligaram aí a viatura demorou pra chegar e o pessoal da reportagem ligou pra secretaria. Tu sabe como as coisas são. - Flávio chegou mais perto e começou a falar mais baixo. - A gente dá uma olhada por cima, quando for de manhã parece que vai ter uma equipe completa aqui. A boca de Gustavo se contorceu com a expectativa de entrar naquela água imunda. Algumas coisas parecem só se tornar reais quando você está de frente para elas.
Ele se afastou do pequeno grupo e deu três passos até ficar na borda do rio. Ele deveria ter uns seis ou sete metros de largura. Do outro lado não havia nada, só mato. Tão denso que nem dava pra saber exatamente onde a terra começava, mas dava para ter uma ideia pela presença de árvores mais altas. Havia alguns dejetos flutuando: um plástico, alguns pedaços de madeira e a espuma, por sinal aqueles objetos eram as únicas coisas que permitiam a ele discernir que àquele breu absoluto era água. Pelo movimento dos objetos, o rio corria da direta para a esquerda do bombeiro. Ele esticou o pescoço pra tentar ver além da casa construída quase dentro da água à sua esquerda. Seu ângulo era bom, mas àquela hora da noite ele só viu escuridão
Tentou respirar fundo pela perspectiva de entrar no breu, mas tossiu devido ao cheiro forte. Prometeu a si mesmo que depois desta iria se aproximar do sindicato na luta pela campanha salarial daquele ano...
Tentou respirar fundo pela perspectiva de entrar no breu, mas tossiu devido ao cheiro forte. Prometeu a si mesmo que depois desta iria se aproximar do sindicato na luta pela campanha salarial daquele ano...
(Continua...)
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